Jogos Que Viraram Animes: Casos Mais Curiosos e Bem Sucedidos
Adaptar um jogo para anime é muito mais difícil do que parece. Em jogos, o jogador controla a narrativa, toma decisões e cria conexão emocional através da interatividade. Já no anime, você senta e assiste.
Essa diferença fundamental é o motivo pelo qual a maioria dos jogos que viraram animes decepciona, e também por que os poucos que funcionam se tornam fenômenos. Este artigo reúne os casos mais curiosos, bem-sucedidos e surpreendentes dessa lista.
Pokémon: o caso mais bem-sucedido da história

Pokémon é o exemplo mais bem-sucedido de jogos que viraram animes, e o número confirma isso. O anime estreou em abril de 1997 no Japão, poucos meses depois do lançamento dos primeiros jogos de Game Boy em fevereiro do mesmo ano. A Toei Animation produziu os primeiros episódios, e a série tornou-se um fenômeno global em menos de dois anos.
O que torna o caso de Pokémon curioso é a relação inversa que o anime criou com o jogo. Em vez de o anime depender do sucesso do game, os dois produtos passaram a se alimentar mutuamente: cada nova geração de jogos lançada impulsionava o interesse pelo anime, e cada nova temporada do anime aumentava as vendas dos jogos correspondentes. Essa sinergia foi tão bem calculada que funciona até hoje, mais de duas décadas depois.
Ash Ketchum, o protagonista original, finalmente venceu o Campeonato Mundial de Pokémon na temporada de 2023, após 25 anos de competições. Liko e Roy substituíram o personagem na sequência, mas a franquia segue em produção contínua, tornando Pokémon o anime de mais longa duração entre os jogos que viraram série.
Castlevania: o roteirista que nunca tinha jogado o jogo

Castlevania é um dos jogos mais clássicos da história dos videogames, com a primeira versão lançada pela Konami em 1986. A adaptação em anime chegou ao Netflix em julho de 2017, e rapidamente se tornou referência quando o assunto é jogos que viraram animes.
O detalhe mais curioso sobre essa adaptação, porém, é que Warren Ellis, o roteirista responsável por toda a série, declarou abertamente ao site Bleeding Cool que “nunca joguei nenhum dos jogos, nem mesmo olhei para eles”.
Ellis chegou ao projeto depois que um longa-metragem animado planejado ainda na década de 2000 nunca saiu do papel, e o script que ele tinha escrito originalmente acabou se tornando a base da série.
Em vez de reproduzir as mecânicas dos jogos, Ellis construiu algo diferente: uma história de fantasia sombria com diálogo que o portal Screen Rant descreveu como “shakespeariano”, com desenvolvimento de personagem e nuances políticas que a maioria das adaptações de games ignora.
O resultado foi 4 temporadas com qualidade visual e narrativa consistentes do início ao fim, um feito raro em qualquer produção animada. Castlevania: Nocturne, o spin-off lançado em 2023, seguiu o mesmo padrão com Richter Belmont como protagonista durante a Revolução Francesa.
Leia também: Vinland Saga: A história real que gerou o anime
Cyberpunk Edgerunners: o anime que ressuscitou um jogo problemático

Esse é o caso mais impressionante da lista, e os números contam a história melhor do que qualquer análise.
Cyberpunk 2077, desenvolvido pela CD Projekt Red, lançou em dezembro de 2020 num estado tão problemático que a Sony chegou a retirar o jogo da PlayStation Store temporariamente. Isso porque a reputação do jogo havia sido gravemente prejudicada por bugs, falhas técnicas e promessas não cumpridas.
Dois anos depois, a CD Projekt Red tomou uma decisão inusitada: em vez de gastar todo o orçamento restante em correções, parte do investimento foi para uma série anime em parceria com o Studio Trigger, o estúdio japonês por trás de Kill la Kill e Darling in the FranXX.
Cyberpunk: Edgerunners estreou no Netflix em 13 de setembro de 2022. Na primeira semana, a série atingiu o Top 10 do Netflix em 19 países simultaneamente, segundo relatório financeiro publicado pela própria CD Projekt.
O impacto nas vendas do jogo foi imediato: em setembro de 2022, Cyberpunk 2077 ultrapassou a marca de 20 milhões de cópias vendidas, um salto significativo impulsionado diretamente pelo lançamento do anime, conforme confirmado pelo CFO da empresa, Piotr Nielubowicz, que chamou o período de “o melhor terceiro trimestre de toda a nossa história”.
O diretor Hiroyuki Imaishi, o mesmo de Gurren Lagann e Kill la Kill, entregou 10 episódios que muitos fãs consideram superiores ao próprio jogo em termos de coesão narrativa.
Nier: Automata Ver1.1a

Nier: Automata, que a PlatinumGames e a Square Enix lançaram em 2017, é considerado um dos melhores jogos da sua geração, especialmente por causa da forma como usa a narrativa interativa para contar uma história que só funciona como jogo.
Quando o anime foi anunciado, a comunidade recebeu com dúvidas legítimas: como adaptar para formato passivo uma experiência que depende da agência do jogador?
A resposta veio do próprio criador. Yoko Taro, diretor do jogo original, co-escreveu o roteiro do anime junto com o diretor Ryoji Masuyama, e explicou a decisão do subtítulo “Ver1.1a” de forma direta: “Criamos o título NieR: Automata como um jogo, então copiá-lo como está não resultaria numa história interessante para anime”.
Em vez de uma adaptação fiel, o anime apresenta variações e cenas adicionais que expandem o universo sem reproduzir simplesmente o que existe no jogo.
A produção ficou com a A-1 Pictures e o Aniplex, com 24 episódios lançados entre janeiro de 2023 e setembro de 2024. A série enfrentou atrasos significativos por impactos da COVID-19, o que prejudicou o engajamento da audiência durante a exibição original.
Ainda assim, a comunidade reconheceu a qualidade da adaptação especialmente pela forma como preservou a trilha sonora original de Keiichi Okabe, que muitos fãs consideram parte essencial da experiência.
Persona 4 e Persona 5: quando o JRPG virou anime de escola

A série Persona da Atlus tem uma relação única com as adaptações em anime porque os próprios jogos têm estrutura de série: dias escolares, personagens com rotinas, relacionamentos que se desenvolvem ao longo de semanas e meses. Essa estrutura facilita a transição para o formato de episódios semanais de forma que outros RPGs não conseguem.
Persona 4 The Animation estreou em 2011, adaptado pelo estúdio AIC ASTA. A série teve boa recepção, especialmente pelo fato de o protagonista ter uma personalidade própria no anime, diferente do silêncio forçado do jogo original. Persona 4 Golden Animation chegou em 2014, cobrindo o conteúdo exclusivo da versão expandida.
Persona 5 The Animation chegou em 2018, produzido pela CloverWorks, mas recebeu mais ressalvas pela comunidade. O problema clássico das adaptações de Persona é o volume de conteúdo: jogos com 80 a 100 horas de gameplay comprimidos em 26 episódios inevitavelmente perdem nuances importantes.
Persona 5 The Royal Animation, lançada em 2022 para cobrir o conteúdo do jogo expandido, tentou corrigir alguns desses problemas, mas com resultados mistos segundo a crítica.
Por que a maioria dos jogos que viraram animes falha
Entender o que deu errado nas adaptações mal recebidas ajuda a apreciar melhor o que os exemplos acima fizeram diferente.
O problema mais comum é o ritmo. Jogos dependem de exploração livre, side quests e repetição mecânica que criam apego gradual aos personagens. Animes não têm esse tempo disponível, e tentar comprimir 80 horas de jogo em 13 episódios quase sempre resulta em personagens rasos e desenvolvimento apressado.
O segundo problema é a transferência de sistemas. Jogos de RPG com sistemas de classes, magias e inventário parecem interessantes como anime, mas raramente funcionam porque o espectador não tem controle sobre as escolhas que deram sentido a esses sistemas no jogo original.
O que os melhores casos da lista têm em comum é justamente o contrário: todos adicionaram algo novo ao invés de apenas reproduzir o que já existia. Castlevania construiu uma narrativa original. Cyberpunk Edgerunners criou personagens novos no mesmo universo. Yoko Taro reescreveu partes da própria história para que funcionassem como anime. Essa disposição de adaptar em vez de copiar separa as adaptações que ficam das que o público esquece em semanas.
Perguntas frequentes sobre jogos que viraram animes
Qual é o melhor anime adaptado de um jogo? A resposta varia de acordo com a fonte consultada. Castlevania é frequentemente apontado pela crítica especializada como o padrão de qualidade. Entre o público geral de anime, Cyberpunk: Edgerunners e Pokémon aparecem com mais frequência nas listas.
Cyberpunk Edgerunners realmente aumentou as vendas do jogo? Sim. A CD Projekt confirmou em relatório financeiro que setembro de 2022, mês de lançamento do anime, foi o melhor trimestre da história da empresa, com Cyberpunk 2077 atingindo 20 milhões de cópias vendidas. O CFO da empresa atribuiu diretamente o resultado ao lançamento de Edgerunners.
O anime de Persona é fiel aos jogos? De forma geral, sim nos eventos principais, mas não nos detalhes e no desenvolvimento de personagens. Jogos de Persona têm conteúdo suficiente para múltiplas temporadas, e comprimir tudo em 26 episódios inevitavelmente resulta em cortes significativos.
Vai ter Cyberpunk Edgerunners temporada 2? A CD Projekt Red sinalizou em outubro de 2023 que existe interesse em continuar a colaboração com o Studio Trigger, mas confirmou que não será uma segunda temporada de Edgerunners. Outros projetos no universo Cyberpunk estão em planejamento.
Warren Ellis realmente nunca jogou Castlevania? Ele mesmo confirmou isso ao site Bleeding Cool durante uma entrevista. Disse que usou pesquisa, equipe da Konami e páginas de fã para entender o universo antes de escrever o roteiro.
Conclusão
Jogos que viraram animes formam uma lista com muitos fracassos e poucos acertos, mas os acertos valem muito. Castlevania provou que um roteirista que nunca jogou o game pode criar a melhor adaptação da história do gênero.
Cyberpunk Edgerunners provou que um anime pode ressuscitar a reputação de um jogo que parecia perdido. E Pokémon provou que, quando feito certo, jogo e anime podem se alimentar mutuamente por décadas.
O padrão que emerge dos melhores casos é claro: as adaptações que funcionam são as que entendem a diferença entre os dois formatos e usam isso a favor da história, em vez de tentar transformar 80 horas de gameplay em 13 episódios.

Um comentário em “Jogos Que Viraram Animes: Casos Mais Curiosos e Bem Sucedidos”